Em 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) para incluir, de forma explícita, a obrigatoriedade de gestão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A mudança passou a valer para todas as empresas com empregados regidos pela CLT e representa uma virada na forma como o Brasil trata a saúde mental no trabalho.
Se a sua empresa ainda não avaliou o impacto dessa atualização, este artigo é o ponto de partida.
O que é a NR-1 e o que mudou
A NR-1 é a norma geral de segurança e saúde no trabalho no Brasil. Ela define os requisitos mínimos que todas as empresas devem seguir para garantir um ambiente de trabalho seguro — independentemente do setor, porte ou atividade.
Antes da atualização, a NR-1 tratava principalmente de riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos. A mudança de 2024 trouxe uma inclusão fundamental: os riscos psicossociais passaram a ser obrigatoriamente identificados, avaliados e gerenciados no PGR.
Isso significa que termos como burnout, assédio moral, estresse crônico, sobrecarga de trabalho e relações conflituosas deixaram de ser problemas de RH para se tornarem riscos ocupacionais com exigência legal de gestão.
O que são riscos psicossociais
Riscos psicossociais são fatores relacionados à organização do trabalho, às relações interpessoais e ao ambiente laboral que podem causar danos à saúde mental e emocional dos trabalhadores.
Entre os principais fatores reconhecidos internacionalmente estão:
- Sobrecarga e ritmo excessivo de trabalho
- Falta de autonomia e controle sobre as próprias atividades
- Comunicação organizacional deficiente
- Ausência de suporte da liderança
- Insegurança no emprego
- Conflitos interpessoais e assédio
- Desequilíbrio entre vida pessoal e profissional
- Falta de reconhecimento e recompensa
A exposição prolongada a esses fatores está associada ao desenvolvimento de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outras condições que impactam diretamente a saúde, a produtividade e a permanência do colaborador na organização.
O que sua empresa precisa fazer
A NR-1 atualizada exige que os riscos psicossociais sejam tratados com o mesmo rigor dos demais riscos ocupacionais. Na prática, isso envolve quatro etapas fundamentais.
1. Identificação dos riscos
A empresa precisa identificar quais fatores psicossociais estão presentes no ambiente de trabalho. Isso pode ser feito por meio de entrevistas, grupos focais ou, mais efetivamente, por meio de instrumentos validados cientificamente — como o COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire), reconhecido internacionalmente e amplamente utilizado no Brasil para avaliar riscos psicossociais.
2. Avaliação e priorização
Após a identificação, os riscos precisam ser avaliados segundo dois critérios: probabilidade de ocorrência e severidade do impacto. Essa análise resulta em uma matriz de criticidade que orienta quais áreas ou fatores devem ser priorizados.
3. Inclusão no PGR
O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) deve ser atualizado para incluir os riscos psicossociais identificados, os planos de ação correspondentes e as evidências documentadas de que a gestão está sendo realizada. Esse documento é o que protege juridicamente a empresa em caso de fiscalização.
4. Monitoramento contínuo
A NR-1 não trata os riscos psicossociais como uma avaliação pontual. A norma pressupõe monitoramento contínuo — ou seja, a empresa deve acompanhar a evolução dos indicadores ao longo do tempo e atualizar o PGR regularmente.
Qual o prazo e quem fiscaliza
A obrigatoriedade entrou em vigor e a fiscalização é feita pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio das Superintendências Regionais do Trabalho. Empresas que não comprovem a gestão dos riscos psicossociais em seus PGRs podem ser autuadas.
Além da fiscalização administrativa, a ausência de documentação pode gerar passivos trabalhistas em ações por danos morais relacionados a adoecimento emocional no trabalho — um risco que tem crescido significativamente nos tribunais brasileiros.
O erro mais comum das empresas
A maioria das empresas que já está se movimentando nessa direção comete um erro frequente: tratar a NR-1 como um projeto de compliance pontual — contratar uma consultoria, fazer uma pesquisa única, gerar um relatório e arquivar.
O problema é que riscos psicossociais são dinâmicos. Eles mudam com a rotatividade, com mudanças de gestão, com períodos de alta demanda, com crises internas. Uma foto tirada em um momento específico perde validade rapidamente.
O que a norma — e, mais importante, a realidade das pessoas — exige é uma inteligência contínua sobre o estado emocional da organização.
Como avaliar riscos psicossociais de forma estruturada
A avaliação de riscos psicossociais deve ser feita com instrumentos reconhecidos e metodologia clara. O COPSOQ-50 (versão Enterprise adaptada ao contexto brasileiro) avalia cinco grandes dimensões:
- Carga e organização do trabalho — ritmo, autonomia, clareza de papel
- Relações e liderança — qualidade do suporte das lideranças e relações interpessoais
- Reconhecimento e recompensa — percepção de equidade e valorização
- Equilíbrio vida-trabalho — fronteiras entre o profissional e o pessoal
- Segurança psicológica — ambiente de confiança e possibilidade de expressão
Os resultados, quando organizados em uma Matriz de Criticidade, permitem que RH e lideranças visualizem exatamente onde estão os maiores riscos — e tomem decisões baseadas em dados, não em percepção.
Conformidade não é o teto — é o piso
Cumprir a NR-1 é o mínimo exigido por lei. Mas as empresas que estão saindo na frente enxergam esse movimento de forma diferente: não como uma obrigação a ser minimizada, mas como uma oportunidade de construir uma vantagem competitiva real.
Organizações que monitoram continuamente a saúde emocional de suas equipes tomam melhores decisões sobre pessoas, reduzem afastamentos, fortalecem o engajamento e constroem ambientes onde os colaboradores permanecem e evoluem.
Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo — tanto na retenção quanto na atração de talentos —, isso importa muito.
Por onde começar
Se a sua empresa ainda não iniciou a gestão dos riscos psicossociais, o primeiro passo é estruturar uma avaliação com metodologia validada. Isso vai gerar os dados necessários para construir ou atualizar o PGR, identificar as áreas que precisam de intervenção prioritária e criar uma linha de base para o monitoramento contínuo.
Se você quiser entender como a IntensaMente Health apoia esse processo — da avaliação inicial ao monitoramento contínuo e à geração de evidências para o PGR —, nossa equipe está disponível para uma conversa sem compromisso.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui assessoria jurídica ou consultoria em saúde e segurança do trabalho. Para adequação específica à NR-1, consulte profissionais habilitados.


